A arte de atuar e as dificuldades do teatro regional

 Rodolfo Reis e Nathália Colt

A arte de interpretar outras vidas surgiu da necessidade do homem de se firmar como ser dominante há milhões de anos. Há registros de que desde a época das cavernas já existia algo parecido com essa arte. Mas, o teatro se tornou como conhecemos hoje a partir do século VI A.C. na Grécia. E mesmo depois de muitos anos ele tem uma grande importância na vida de quem pratica.

No cenário regional, são poucos os que prestigiam a arte, quando se pergunta qual o melhor ator ou atriz, a resposta sempre está na TV ou nos cinemas. Em São José dos Campos o cenário não é diferente e inclusive o Vale do Paraíba sedia hoje, grandes grupos e Cia de Teatro e um dos maiores festival de teatro do país o Festivale.

Por outro lado, muitas dificuldades são apontadas pelos profissionais da área. Milena Siqueira, 30 anos é atriz profissional há 10 e integrante do grupo teatral Cia na Boca relata. “Uma dificuldade, com certeza, é conseguir se inserir no mercado de trabalho, que é pequeno, competitivo e cheio de conceitos equivocados por parte daqueles que contratam os nossos serviços”. Para Nathália Bastos, 25 anos, que completa em 2013 dez anos de carreira como atriz profissional conta. “Viver de arte, geralmente, é saber que dois meses você tem dinheiro e dois meses não. E persistir numa profissão com essas condições, depende de muito amor e dedicação”.

Élcio de Carvalho, 30 anos, professor de Teatro e Recursos de Comunicação pela FUNDHAS exemplifica os desafios. “As pessoas têm ideias de que os atores são seres não muito próximos do cotidiano, ledo engano, as dificuldade enfrentadas por aqueles que buscam no teatro uma forma de serem absolutos, são as mesmas dos que buscam suas alegrias em qualquer outra profissão. Somos operários das artes.”

Há também ainda quem acredita que o único bem de São José dos Campos é a sua capacidade industrial e por isso há tão pouco investimento na cultura. Jéssica Lane, que atua como atriz há quatro anos comenta. “A falta de recurso e apoio para o profissional que atua em teatro é a maior dificuldade que o profissional encontra, principalmente aqui na região que visa um lado mais industrial.”

Mas esses fatores não os desanimam, muitas Cias e Grupos formam espaços para disseminar essa arte. Um exemplo é o Teatro da Rua Eliza que surgiu da união de 11 atores que decidiram somar e compartilhar suas experiências, talentos, delírios e desejos. Outro grupo que também se reúne para fazer esse intercâmbio é o Núcleo Teatro Casa de Benê formados por Élcio de Carvalho, Guilherme Augusto estudante de comunicação e ator há dois anos e Amanda Evelyn atriz há dois anos. Desde maio deste ano, eles ensinam gratuitamente a arte de atuar todos os sábados na Universidade do Vale do Paraíba.

Incentivo

A Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) é que faz hoje todo o atendimento da área de cultura em São José dos Campos. Wangy Alves, coordenador de projetos da FCCR. Responsável pelos Festivale, Temporada Popular de Teatro e do próprio CET- Centro de Estudos Teatrais nos explicou alguns dos recursos que a cidade disponibiliza para o Teatro. “A Fundação Cultural Cassiano Ricardo tem uma grande variedade de projetos para as Cias e Grupos de Teatro da região, além também de oficinas para os interessados em entrar nesta área. O Festivale, um dos maiores festivais de teatro do Brasil, tem o objetivo de fazer um intercâmbio com as companhias de teatro para que todos possam aproveitam e aprender com as diferentes formar teatral”.

Além disso, a FCCR tem disponibilizado pela cidade 12 espaços culturais que tem como objetivo fazer a descentralização da cultura, e tantos os espaços quanto o CET está disponível para qualquer grupo interessado em utilizar, seja para ensaiar, para marcar uma reunião ou até mesmo para divulgar seu trabalho. “Quando eu era adolescente não havia essa variedade de opções culturais que há hoje e mesmo assim eu consegui transformar minha vida graças ao teatro. E atualmente, mesmo com toda tecnologia que há vejo que o teatro ainda não perdeu seu propósito e continua a transformar pessoas.”

O show não pode parar

A vida de quem vive de teatro é intensa e instável ao mesmo tempo “É preciso muito trabalho e empreendedorismo, diferentemente do que se pensa, é preciso acordar a sete da manhã e trabalhar oito horas por dia, como todo mundo, às vezes mais, muito mais. É preciso ter um bom planejamento, afinal você é seu próprio patrão”, explicou Milena Siqueira.

“O trabalho continua muitas vezes na confecção de figurino, cenário, preocupação com divulgação, produção, enfim, tiramos a função de outros profissionais justamente devido a falta de recurso e de apoio. Infelizmente essa não é uma realidade regional, mas sim de todo um cenário teatral”, completa Jéssica Lane.

Para Natália Bastos a vida de quem vive de teatro é uma montanha-russa. “Tem correr muito para trabalhar. Hoje tenho o meu teatro, meu grupo, mas temos que correr atrás de apoiadores, projetos e leis de incentivo. Um momento estamos lá em cima, em outro sofremos uma queda. Mas a adrenalina, o tesão que sentimos… ah! Não tem nada que pague”, contou.

Élcio conclui. “Na minha vida o teatro tem o papel de repensar a realidade, o de aproximar da fantasia, o de entreter, o de questionar. O teatro é a expiação de forma sutil de toda a grandeza da capacidade e criatividade do ser humano. O teatro cada vez mais me aproxima do humano, em um cotidiano que nos força a sermos máquinas”.

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