Repost – Racismo disfarçado

O mito da miscigenação racial, de que “somos todos humanos” é muito difundido pela mídia. Essa ideia tenta incutir que o racismo trata-se de ignorância, visto que todos temos ascendência negra em nossos genes. Porém esta mesma linha de raciocínio posiciona-se contra as cotas, e defende que quando um negro ocupa uma posição de destaque não há o que comemorar já que somos todos iguais. Uma forma de invisibilizar os negros e negras, mantê-los à margem da sociedade, porém sem parecer nitidamente racista. Sim racismo é ignorância sob muitas formas e invisibilizar os negros e negras é uma delas.

Uma das consequências deste desfavor social que a imprensa golpista tentar nos fazer engolir goela abaixo, é o racismo disfarçado que sofremos cotidianamente. Expressões que ouvimos com infeliz frequência são  naturalizadas de tal forma que se alguma negra alardear, é facilmente justificado pelos brancos como “dito popular” ou com um simples “fui mal interpretado”. Nós vítimas do racismo, somos muitas vezes transformados em criadoras de caso, oportunistas e ignorantes (não entendemos o contexto em que o termo foi usado).

Os dados nos trazem outras interpretações. Segundo o Mapa da Violência 2014 no período de 2002 a 2012, enquanto o número de assassinatos de brancos diminuiu, passando de 19.846, em 2002, para 14.928, em 2012, o número de assassinatos de negros aumentou de 29.656 para 41.127, no mesmo período.

Já segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) os negros ganham 57% dos salários dos brancos. Enquanto um trabalhador branco recebe em média R$ 2.396,74, os trabalhadores negros ganham em média R$ 1.374,79, conforme mostrou a pesquisas Mensal de Emprego (PME), em 2013.

Ainda, de acordo com o Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), mulheres brancas recebiam 52% a mais, em média, do que as mulheres pretas ou pardas.

Queria aqui destacar algumas expressões que nós negros e negras ouvimos rotineiramente e nos indignamos com cada uma delas. Depois de tomar conhecimento dessas frases peço que não às usem mais. A língua portuguesa é tão rica em vocabulário que não há necessidade de conscientemente utilizar termos racistas.

  1. “Cabelo ruim”, “Cabelo de Bombril”, “Cabelo duro”, “Cabelo bandido: Quando não está preso está armado” – A negação da nossa estética como bela se dá por estarmos fora do padrão de beleza europeu. O capitalismo também se favorece com isso através da indústria cosmética que tenta embranquecer a estética negra. Ruim é achar que todo cabelo para ser bonito tem que ser liso. Uma das formas de empoderamento das negras é através da aceitação do seu crespo.
  2. “A coisa tá preta”, “ovelha negra da família” – Essas expressões, que ligam as palavras “preto” e “negro” a situações negativas são tão corriqueiras que muitas pessoas nem percebem que estão sendo racistas. Mas estão!
  3. “Seu macaco” – Esta expressão associa à cor da pele negra a um animal próximo na escala evolutiva, porém intelectualmente inferior. Significa dizer que a raça negra é menos gente do que os caucasianos.
  4. “Não sou tuas negas” – É a permissividade da cultura do estupro. O termo dá a entender que com a mulher negra se pode fazer tudo, pode desrespeitar, pode abusar, pode estuprar…
  5. “Nossa! Nem parece sua mãe/filha” – Vai estudar. Sem mais.
  6. “Amanhã é dia de branco” – Durante a escravização os negros eram forçados a trabalhar e ainda assim eram chamados de “vagabundos”, “preguiçosos”. O trabalho era dos brancos em fazer os negros produzirem alguma coisa, já que eram considerados como animais. Dia de branco era o dia de produzir para o branco. Não confundam preguiça com resistência a escravização.
  7. “Serviço de preto” ou “baianada” – Não é preciso explicar que na Bahia a maior parte da população é negra. Essa expressão é usada quando um serviço é mal feito. Outro reflexo do período da escravização onde os negros faziam os trabalhos sob chibatadas, sol quente e com pouca alimentação.

OBS: Não consigo nem sequer compreender como ainda usam esses termos do item 6 e 7. Reduzir a produção ou realizar a tarefa sem empenho ou interesse na perfeição, como ato de resistência a escravização não pode ser usado como expressão que reduza a dignidade de um povo. Era uma forma de protesto. Você faria com afinco e dedicação um trabalho sob açoite? Eu não.

  1. “Denegrir” X “Esclarecer” – O significado de denegrir é “tornar negro”. Se tornar algo negro é tornar algo ruim, temos mais um caso de racismo. O oposto é esclarecer, tornar claro. Neste caso a confusão criada entre cor e raça é proposital. É mais uma forma subliminar de expressar que o que identificamos como negro é ruim e o que identificamos como branco é bom.
  2. “Inveja branca” – Segue a ideia de relacionar ao Negro o que é ruim e ao branco o que é bom. Mas convenhamos, Inveja é sempre ruim.
  3. “Da cor do pecado” – Essa tem uma mensagem de fundo. A ideia é tirar a culpa do branco pelo abuso sexual, visto que a cor das negras incita o pecado. Culpabilizar a vítima. Importante também lembrar que vivemos em uma sociedade pautada pela religião e associar a pele ao pecado é transformar as mulheres negras em algo do mal. Não é um elogio.
  4. Morena”, “mulata”, “tipo exportação” – Aqui o objetivo é amenizar o que somos, “clareando” o negro. Se você está incomodado em chamar alguém de negro(a) é porque acredita que isto é ofensivo, sendo assim embranquece a pessoa – transformando-a em “morena” ou “mulata”. Isso é racismo.
  5. “Negra de beleza exótica” ou com “traços finos” – Ser negra e ser bonita está relacionado a se aproximar dos traços dos brancos. Sim, isso é racismo. Ser negra não é nada exótico. Somos 50,7% dentre negros e pardos, da população brasileira segundo o IBGE. Esse tipo de racismo é absurdamente hipócrita.
  6. “Nasceu com um pé na cozinha”, “Tem um pé na senzala” – Os negros não eram escravos. Eles foram escravizados. Associar a senzala ou a cozinha a sua origem é de uma crueldade insana. A presença das negras na cozinha era permitido nas casas grandes para execução das tarefas domésticas e para facilitar o assédio e estupro por parte dos senhores. Retire essa expressão do seu vocabulário com urgência!
  7. “Você tem sorte de ser negro, nem precisa estudar para passar no vestibular” – Minha ancestralidade não entende como sorte ter sido escravizada, muito menos eu entendo como sorte sofrer os reflexos da escravização. Geralmente isso eu nem respondo.

Encontrou alguma expressão que você usa? Não use mais. O argumento da ignorância não mais se aplica. Continuar a usar estes termos é decidir reafirmar o preconceito, é decidir ser racista.

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