Elza Soares fala sobre feminismo, o amor por Garrincha e como cantar ainda é ‘remédio bom’

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Toda vez que o samba mandou chamar, ela veio. Em 1953, Elza Conceição Soares subiu ao palco do programa de Ary Barroso, na Rádio Tupi, com seus 50 kg, roupas remendadas com alfinete e uma sandália emprestada de sua mãe. “De onde você vem?”, ele perguntou, em tom de gozação. E ela respondeu: “Do planeta fome”.

Assim que Elza começou a cantar os versos de Lama, “se eu quiser fumar, eu fumo, se eu quiser beber, eu bebo”, escritos por Aylce Chaves e Paulo Marques, Ary se encantou com o timbre e a força daquela voz rouca cheia de distorções únicas. Ao final da apresentação, abraçou Elza e bradou: “senhoras e senhores, nasce uma estrela”.

62 anos depois, a história da menina pobre que virou estrela incansável da música popular brasileira ficou marcada por dificuldades e chutes nas portas para conquistar respeito. Elza passou fome na infância, perdeu maridos, filhos, amargurou a falta de dinheiro, ficou quase dez anos sem gravar e sofreu com o julgamento da sociedade por se relacionar com Mané Garrincha (que era casado na época).

Essa trajetória marcada por recomeços é celebrada em A Mulher do Fim do Mundo, seu primeiro álbum de inéditas em quase 60 anos de carreira. Idealizado pelo produtor paulista Guilherme Kastrup e boa parte dos integrantes do grupo Bixiga 70, o disco traz uma Elza forte e renovada, que honra o verso “me deixem cantar até o fim”, da faixa de abertura.

“Eu acho que a mulher do fim do mundo é aquela que busca, é aquela que grita, que reivindica, que sempre fica de pé. No fim, eu sou essa mulher”, disse em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil.

Aos 78 anos, Elza parece ter curado algumas feridas da vida, mas tem de lidar com outras, como a perda recente de um filho e as dores na coluna que a obrigam a fazer sessões de fisioterapia, cirurgias e até shows sentada sem o seu icônico salto 15.

Nesta entrevista, ela fala sobre o novo projeto, feminismo, o amor por Mané Garrincha e como cantar é o que a ajuda a não perder a cabeça.

HuffPost Brasil: 78 anos e pela primeira vez um disco só de inéditas, Elza. Como é isso?
Elza Soares: Ma-ra-vi-lho-so. Meu amor, eu me sinto uma criança. Eu estou ótima, maravilhosa. A coluna está ‘braba’, mas eu estou ótima. A minha vida está sensacional. A minha garganta está ótima.

E como surgiu a ideia desse novo projeto?
Essa ideia surgiu em um show do Cacá Machado [músico e produtor]. Eu fiz uma participação especial em um show dele e veio o Kastrup [Guilherme, também produtor e músico] com a ideia de fazer esse trabalho. E eu pensei “por que não fazer”? Vamos fazer, claro. O Kastrup é uma pessoa muito sensível, maravilhosa. Tudo foi muito bom. Então eu não tinha por que não fazer. Foi um presente para mim.

O trabalho em conjunto de todos esses produtores conseguiu trazer um pouco da Elza em cada música. Tem muito samba, distorção, tem muita Elza no novo álbum…
Eu acho que tem. Todo mundo trabalhou para isso. Foi feito para mim. Fui entregue em ótimas mãos.

O nome A Mulher do Fim do Mundo é muito forte. O que ele representa para você?
Eu me vejo nele, lógico. Eu sou uma mulher muito forte. Há dois meses eu perdi mais um filho e estava precisando de coisas que me ajudassem, que me dessem força. Parei um tempo, fiquei no spa da Tânia Alves, mas não me recuperei 100% ainda. Mas tudo isso veio na hora certa. Então, eu sou a mulher do fim do mundo, mesmo. Eu acho que a mulher do fim do mundo é aquela que busca, é aquela que grita, que reivindica, que sempre fica de pé, é essa mulher. No fim, eu sou essa mulher.

Gilson Soares, um dos filhos de Elza, morreu em 26 de julho de 2015, aos 59 anos, por complicações de uma infecção urinária. Ele é o terceiro filho que Elza perde. De acordo com Jorge Chamon, empresário dela, em entrevista ao UOL, o primeiro morreu de fome, em 1953, e Garrinchinha, filho da cantora com o jogador Garrincha morreu, em 1986, em um acidente de carro. Ela é mãe de: João Carlos, Gerson, Dilma e Sara.

Continuar trabalhando foi uma forma de se “renovar” pessoal e profissionalmente?
Eu acho que sim. Eu estava precisando cantar em um momento de dor, sofrimento. Eu tenho essa mania de me reinventar. Se você não buscar o melhor para você, você não consegue nada. Eu continuo buscando, reivindicando, sambando, desejando, sempre. E o conjunto de artistas de São Paulo que está me acompanhando entrou nessa sintonia.

A sua primeira apresentação foi no programa do Ary Barroso, ele perguntou de onde você vinha por notar sua magreza e roupas simples. Você respondeu que vinha do “planeta fome”, e começou a cantar…
Foi uma humilhação. Ele perguntou o que eu estava fazendo lá e quando me viu cantar Lama, disse “senhoras e senhores, nasce uma estrela”. E eu não entendi nada. Fiquei procurando onde estava a estrela [risos].

O que a Elza de hoje diria para a Elza daquela época?
Eu diria: “Continua. Não desiste. Vai seguindo assim, que está tudo bem”. Era o que eu gostaria de ter escutado.

A Elza que canta Maria da Vila Matilde é uma Elza forte, que quer passar essa força para outras mulheres…
Lógico, é a denúncia. Eu estou explicando para ela: “não deixa ele pegar em você. Não deixa ele encostar em você”. Ninguém fazia nada sobre isso no passado até chegar a Maria da Penha e botar pra quebrar. Eu acho um pecado. As mulheres escondem. A gente sabe que mulher sofre muito “escondidinho”. Tem que gritar, tem que falar, tem que botar pra foder mesmo.

É praticamente impossível um artista não falar daquilo que está acontecendo no seu tempo. Você concorda?
Claro. E eu sou a mulher do agora. A gente tem que falar sobre o que está acontecendo com essas mulheres.

E você se vê nelas?
Eu passei por coisas terríveis na vida que afetaram até a minha carreira. Mas, graças a Deus, tive de volta coisas boas. Cada porrada que eu levo é um beijo que eu recebo. E aí você aprende a ser beijado e aprende a beijar de volta também.

É mais fácil ser mulher hoje, Elza?
Olha, eu acho que sim. Hoje é muito fácil. Mas a mulher tem que continuar trabalhando e buscando. Porque senão não chega aonde quer chegar. A gente ainda precisa de muita, muita coisa. Mas está mais fácil sim. Hoje a gente tem mais liberdade. A mulher pode escolher, fazer o que ela quer. É a mulher quem comanda. Que mantém tudo no eixo.

 

Antes quem lutava por algo era punida…
Sim. A mulher era tratada como escrava, praticamente. A mulher era feita para ser mãe e “para me dar prazer”, para ficar no tanque, no fogão e olhe lá. A mulher se libertou disso. Olha você trabalhando em um jornal, que coisa maravilhosa, não é?

É, e acho que isso só é possível porque mulheres como você abriram um caminho…
Mas é claro. Você sabe que o Dia da Mulher existe por causa de um incêndio em uma fábrica, não é? Mais de cem mulheres morreram queimadas no dia 8 de março. Elas resistiram e pagaram com a vida. Eu acho que isso merece ser louvado e falado durante a vida toda. Reivindicar pela vida das mulheres que ainda sofrem e morrem de outras formas. A gente tem que ser lembrada pela luta e pela força.

Você se considera feminista?
Eu não sei o que eu me considero [risos]. Eu sou mulher. Sendo feminista ou não, eu sou mulher. Mulher que grita, que briga, que busca para que aconteça o melhor. Sempre.

Você acredita que foi muito julgada pelo relacionamento com o Garrincha?
Mas muito. Não foi pouco. Aquele negócio, não é? Eu não tenho medo. Eu enfrento, então suportei tudo aquilo que veio. Mas muito, fui muito julgada. Nossa, foi terrível. Mas não existe parar no meio do caminho para mim.

Sem todo esse julgamento, teria sido diferente?
Eu acho que sim. Tanto na minha carreira, quanto na vida dele também. Teria sido mais fácil conviver. É uma situação difícil porque a cobrança era muito grande. Eu estou aqui na terra de passagem, eu vou ter medo do quê? Estou aqui de passagem, meu Deus. Tenho o mesmo direito que todo mundo tem. Não sou melhor ou pior do que ninguém.

Ele foi o grande amor da sua vida?
Sim. Foi um grande amor. Com direito a tudo o que o amor proporciona, até as coisas não tão boas assim.

Mas ele foi o maior dos amores?
Eu não sei, mas acho que sim. Eu sou uma mulher de muitos amores. Gosto muito de amar. Hoje eu estou amando a minha coluna. Estou me recuperando bem. Enquanto ela não ficar boa, não desgrudo dela. Não tem outro namoro. Eu converso com ela: “vai ficar boa ou não vai?” [risos].

A queda de Elza: Em 1999, Elza caiu de um palco de aproximadamente dois metros de altura enquanto fazia um show no Metropolitan, em São Paulo, o que provocou um achatamento na coluna. Inicialmente, Elza precisou usar um colete e não deixou de usar seu emblemático salto 15 — o que, com o tempo, a fez sofrer com dores e dificuldades de locomoção. De 2007 para cá, já fez quatro cirurgias e correu o risco de perder os movimentos ou a fala. Recuperada e saudável, ela precisou abrir mão do gingado, do salto alto e, atualmente, faz os shows sentada.

E o salto 15 continua guardado?
Sim. Continua guardadinho bonitinho. Por enquanto eu estou usando tênis, mas espero que a minha coluna diga algum dia para mim: “preciso do salto quinze, vai, veste!”.

E, Elza, mudando um pouco de assunto, como você vê o movimento negro hoje?
A gente tem lutado muito, não é? Eu não vejo nada de referência para o negro no Brasil, por exemplo. O negro que está nascendo hoje é muito complexado. Não existe quase nenhuma política pública para ele. Não existem referências.

O Brasil ainda é um país extremamente racista, então?
Muito, muito, muito racista. Mas é lógico que existe esperança. Eu sou a mulher que perde a razão, mas não perde a esperança. Eu sempre voto pelo melhor. É uma luta acreditar que vai melhorar e, principalmente, denunciar esse racismo e essa hipocrisia que é escancarada e ninguém vê. Ou quase ninguém.

A carne mais barata do mercado ainda é a carne negra?
Mas é claro. Isso está na cara de todo mundo. É o óbvio. O negro não tem vez neste País.

Como você vê a atual situação política e econômica do País?
O meu grande desejo era ver uma mulher presidindo o País. Esse é o desejo de toda mulher, eu acho. Eu vejo na Dilma [Rousseff] o seguinte: ela não pode fazer nada. Está sozinha. Eu acho que os tempos estão difíceis, mas nunca como na ditadura. E tenho a certeza de que vai melhorar.

E, Elza, mudando um pouco de assunto, como você vê o movimento negro hoje?
A gente tem lutado muito, não é? Eu não vejo nada de referência para o negro no Brasil, por exemplo. O negro que está nascendo hoje é muito complexado. Não existe quase nenhuma política pública para ele. Não existem referências.

O Brasil ainda é um país extremamente racista, então?
Muito, muito, muito racista. Mas é lógico que existe esperança. Eu sou a mulher que perde a razão, mas não perde a esperança. Eu sempre voto pelo melhor. É uma luta acreditar que vai melhorar e, principalmente, denunciar esse racismo e essa hipocrisia que é escancarada e ninguém vê. Ou quase ninguém.

A carne mais barata do mercado ainda é a carne negra?
Mas é claro. Isso está na cara de todo mundo. É o óbvio. O negro não tem vez neste País.

Como você vê a atual situação política e econômica do País?
O meu grande desejo era ver uma mulher presidindo o País. Esse é o desejo de toda mulher, eu acho. Eu vejo na Dilma [Rousseff] o seguinte: ela não pode fazer nada. Está sozinha. Eu acho que os tempos estão difíceis, mas nunca como na ditadura. E tenho a certeza de que vai melhorar.

Você se arrepende de algo, Elza?
Eu me arrependo daquilo que eu ainda não fiz. No fundo, é isso. Não tem do que me arrepender, não. Tô aqui só de passagem.

Cantar continua sendo o seu melhor remédio?
Lógico. Cantar é remédio bom. É remédio da alma. É daí que vem toda a minha força.

PARA CONHECER ELZA SOARES:

Para ouvir:

A Mulher do Fim do Mundo
Single Maria da Vila Matilde está disponível no site da Natura Musical. E o álbum já está no Spotify.

Para assistir:

My Name Is Now
Documentário de Elizabete Martins Campos sobre a vida da cantora.

Garrincha, Estrela Solitária
Filme baseado na biografia de Ruy Castro sobre a vida de Mané Garrincha (2003).

Provocações
Em uma das edições do programa de Antônio Abujamra, na TV Cultura, em 2010, Elza fala sobre sua devoção a São Jorge e ter sido eleita cantora do milênio pela BBC. Assista aqui.

Para ler:

Cantando para não enlouquecer
Biografia de Elza Soares escrita por José Louzeiro, lançada pela Editora Planeta.

Estrela solitária: Um brasileiro chamado Garrincha
Biografia de Mané Garrincha, escrita por Ruy Castro, em que a história de Elza também é lembrada.

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