8 Estereótipos de Mulheres Negras que a Mídia Precisa Parar de Usar

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

Já faz quase dois anos que Viola Davis se tornou a primeira mulher negra a ganhar um Emmy por Melhor Atriz, mas o seu discurso continua tão atual hoje como o foi naquela noite: às atrizes negras não falta talento – falta oportunidade.

Os números da representatividade negra no cinema e na televisão não me deixam mentir. Recentemente, pesquisadores da University of Southern California analisaram mais de 30.000 personagens nos filmes de maior bilheteria entre 2007 e 2014 e verificaram o quão desequilibrada é a balança. Entre os 100 maiores filmes de 2014, por exemplo, somente 17 tiveram atores não-brancos no papel de protagonistas.

mulheres negras

Esses números são referentes ao cenário norte-americano, mas no Brasil a situação é ainda pior. Com a pesquisa Raça e Gênero nas Novelas dos Últimos 20 anos, o GEMAA – Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, do IESP da UERJ – descobriu que entre 1995 e 2014 apenas 10% dos personagens centrais em novelas brasileiras foram negros.

mulheres negrasO que torna essa descoberta especialmente devastadora é o fato de 54% da população brasileira ser negra.

 

É importante perceber, no entanto, que vivemos em uma sociedade racista e machista, o que faz com que mulheres negras sejam duplamente preteridas nas produções. Nas novelas brasileiras entre 1994 e 2014, apenas 4% das protagonistas foram mulheres negras (sendo que apenas três atrizes se revezaram para interpretar essas personagens). Na televisão americana, entre 2014 e 2015, 77% das personagens femininas na telinha foram brancas. Já no cinema hollywoodiano, apenas 6 dos 500 maiores filme de todos os tempos tiveram mulheres não-brancas como protagonistas.

Sendo que 5 desses filmes foram animações.

 

Isso acontece porque as mulheres negras são menos talentosas, competentes ou interessadas em atuação do que as mulheres brancas? Como bem nos provam Viola Davis e inúmeras outras atrizes negras incríveis Brasil e mundo afora, obviamente que não.

O que acontece é que a indústria tende a pensar que artistas negras só podem ser escaladas para interpretar papéis especificamente escritos para personagens negras. E como esses papéis costumam ser secundários e estereotipados (porque, afinal, a indústria não tem interesse em contar histórias femininas e não-brancas), acaba que essas atrizes raramente são escaladas para papéis complexos e de protagonismo. Mulheres negras simplesmente não disputam os mesmos papéis que as mulheres brancas. E os papéis que elas disputam são limitadíssimos e quase nunca lhes dão a oportunidade de se destacarem como atrizes.

Esse é um dos problemas que os estereótipos de mulheres negras usados na mídia e no entretenimento trazem. O outro problema é o impacto disso na sociedade: com uma representação estereotipada (quando não inexistente), a invisibilização e desvalorização das mulheres negras são reforçadas, o que contribui para a manutenção de um sistema que as violenta diariamente (lembrando que de acordo com o Mapa da Violência 2015, a violência contra mulheres negras cresceu mais de 190% entre 2003 e 2013).

A mídia tem uma influência enorme na forma como vemos o mundo. Cabe a nós, o público, repudiar os estereótipos e cobrar representatividade para que o seu impacto seja positivo, e não um reforço de opressões e desigualdades. Para tanto, é fundamental conhecer os principais estereótipos usados contra mulheres negras no cinema e na televisão – muitos deles usados para deter o avanço desse grupo há séculos. Estereótipos como…

A Mãe Preta

Baseada no arquétipo norte-americano conhecido como Mammy, a Mãe Preta costuma ser uma escrava, ex-escrava ou empregada doméstica (dependendo da época retratada na novela) que ama demais a família branca que serve e faz tudo por ela. Gorda, supersticiosa e cozinheira de mão cheia, não raro ela atua como ama-de-leite/babá das crianças da família, além de realizar todos os afazeres domésticos e fazer as vezes de conselheira da patroa e de seus filhos. Sua vida é servir, o que ela faz com prazer e muito bom humor. Ah – e como os brancos são muito bonzinhos, a Mãe Preta é sempre muito querida e considerada como um “membro da família” (imagine aspas gigantes aí).

O grande problema da Mãe Preta é que ela costuma ser uma personagem sem vida ou motivação própria, sendo que toda a sua força e personalidade são usadas em prol da família branca. Sempre em posição subalterna, mas feliz da vida mesmo assim, a figura da Mãe Preta acaba ocultando as relações de poder por trás da sua situação. E como se não bastasse, ainda reforça a ideia de que mulheres negras são naturalmente subservientes e pertencentes ao serviço doméstico.

A Mãezona

Uma das imagens mais recorrentes em filmes e séries é o da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora, existem dois caminhos que esse tipo de personagem costuma percorrer:

  1. Ou sua vida é uma sequência de tragédias e desgraças, e a personagem sucumbe ao sofrimento (normalmente ela cai nas drogas ou prostituição).
  2. Ou a personagem é uma fortaleza – tanto física como psicologicamente – e encara de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

Os dois casos são problemáticos. O primeiro, porque reforça um lugar de eterno sofrimento para a mulher negra. De acordo com a nossa colaboradora Gabi Costa:

“Existe uma realidade que está posta para essa parcela da população, disso não temos dúvidas. No entanto, por muitos e muitos anos o cinema tem tornado esse fato a única história a ser contada sobre nós (…). É necessário que possamos admitir a existência de diversas histórias que possam ser contadas através das câmeras. Que trabalhando com os diversos enquadramentos da vida, e mostrando outros ângulos e takes dos melhores atos, existam cada vez mais histórias sobre nosso povo sendo retratado honestamente. Que possamos questionar a existência da morte, dor ou sofrimento sobre nós mesmos, porque a minha vida não se trata apenas disso. Ela tem, sim, os fardos que o racismo nos faz carregar, mas também tem momentos lindos junto à minha família aos domingos, tem histórias de amor e, mais ainda, tem ancestralidade.”

Já o segundo, porque acaba reforçando um outro estereótipo muito comum de mulheres negras…

A Durona

Na maioria dos casos, mulheres negras costumam ser retratadas como seres inabaláveis, capazes de aguentar todos os fardos possíveis e imagináveis. Durante séculos esse é um estereótipo que foi usado para justificar todo tipo de violência contra elas – desde trabalho braçal forçado, até o uso de seus corpos para estudos médicos (pesquisa lá sobre como o James Marion Sims se tornou o “pai” da ginecologia moderna fazendo cirurgias em mulheres negras escravizadas sem anestesia).

De acordo com a blogueira e youtuber Alexandra Ravelli, do canal Soul Vaidosa, esse estereótipo contribui para reforçar a nossa atitude de dispensar ou se comover menos com o sofrimento de mulheres negras em situação de vulnerabilidade, porque no imaginário social “elas aguentam” (lembrando que até hoje mulheres negras recebem menos anestesiaem hospitais). Isso sem contar as consequências dessa crença no psicológico dessas mulheres, que muitas vezes tem a sua saúde mental ignorada. Além disso, o estereótipo contribui também para afastá-las de ideais machistas de feminilidade, que privilegiam as mulheres dóceis e frágeis.

A Melhor Amiga da Protagonista Branca

Um dos papéis mais preenchidos por mulheres negras em produções que pretendem ser mais “diversas” é o da melhor amiga da protagonista branca. Embora a sua personalidade varie, uma coisa é certa: essa é uma ótima amiga, sempre muito leal e pronta para dar bons conselhos. Ou seja, essa é outra personagem sem motivação ou vida própria, e sua função é a de servir e apoiar a heroína (ou herói) branca. Não raro ela encarna uma versão feminina do Negro Mágico, com uma sabedoria misteriosa, sempre usado em favor dos outros.

Muitas vezes, A Melhor Amiga da Protagonista Branca também acaba sendo um alívio cômico ao ser encaixar no estereótipo da…

A Mulher Negra Arretada e/ou Barraqueira

A negra arretada é aquela personagem expansiva, cheia de atitude, que não tem medo de puxar a orelha de quem quer que seja e é mestre em fazer movimentos circulares com a cabeça sem dar mal jeito no pescoço.

Curiosamente, os estereótipos racistas relacionados à negra arretada surgiram como resultado do Movimento pelos Direitos Civis e do Movimento Feminista, como uma forma de trazer mais visibilidade para mulheres negras no Cinema. Antes disso, elas eram relegadas à subserviência e/ou ao silêncio, por isso a mudança foi considerada bem-vinda inicialmente, e foi muito utilizada por autores e roteiristas que queriam mostrar que não eram racistas escrevendo empregadas negras que eram a alegria da casa e não hesitavam em repreender o patrão quando preciso.

O problema é que tem dois caminhos que esse estereótipo pode tomar: o caminho da Melhor Amiga, que geralmente faz com que a negra arretada seja também sensata, confiável, leal e um alívio cômico; e o caminho negativo, que envereda ladeira abaixo nos estereótipos da Negra Promíscua, da Negra Barraqueira e da Negra Perua.

Nesses casos, normalmente temos personagens mal humoradas, agressivas, castradoras e maliciosas, incapazes de gestos de carinho e, portanto, não merecedoras de amor, cuidado ou respeito (em oposição, também nesse caso, à suposta docilidade de mulheres brancas). De acordo com a historiadora Suzane Jardim:

“Cientistas sociais do pós escravidão afirmavam que a culpa do desemprego, pobreza e suposta passividade do homem negro pra crescer na vida não era de qualquer política social ou econômica, mas sim, do status matriarcal da dominância da mulher negra descontrolada sobre o homem  – ‘se você não doma nem sua mulher, como quer ter um emprego?’  –  pois é…”

Obviamente que esse estereótipo é muito eficaz contra mulheres negras, que para não serem enquadradas como “mulher negra raivosa” acabam silenciando.

A Mulher Negra Fogosa e Sensual

A hipersexualização da mulher negra também é outra constante na mídia e no entretenimento. Normalmente, ela se materializa em personagens rebolantes e luxuriosas, seres irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos os homens ao seu redor. Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele, sendo que nesse estereótipo são enquadradas as mulheres negras de pele clara (seria a ofensiva classificação “mulata exportação”).

Assim como no caso do estereótipo da mulher negra durona, a imagem da Negra Fogosa e Sensual foi (e ainda é) muito usado para justificar violências cometidas contra mulheres negras – violências sexuais, mais especificamente. Novamente, de acordo com a historiadora Suzane Jardim:

“Basicamente o grande impacto desse estereótipo foi o de que ele foi responsável por justificar o estupro e abuso sexual cometido à mulheres negras, afinal, seria ‘impossível estuprar mulheres tão promíscuas’. (…) Mesmo depois da abolição, o estupro e o abuso não parou: o medo que mulheres negras tinham de denunciar homens brancos de estupro e abuso era justificado e a prática se manteve até hoje  –  a negra fogosa que tá procurando, sabe como é….Essa imagem sexualizada da mulher negra devoradora de homens como um contraponto da mulher branca comportada é amplamente usada na mídia. (…) A mulher branca permanece uma ótima esposa enquanto as mulheres negras se fixaram como as melhores amantes.”

Hoje em dia, mulheres negras têm três vezes mais chances de serem estupradas do que mulheres brancas, e a sua objetificação as posiciona como preferidas pelos homens para relações sem compromisso.

A Empregada Doméstica

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Um dos únicos papéis que costuma ter de sobra para atrizes negras é o da empregada doméstica. Embora varie em índole e personalidade (podendo ser desde espevitada até subserviente, maliciosa, santa, sensual, irreverente, servil, etc) esse tipo de personagem está sempre em posição subalterna. Sua existência gira em torna das personagens brancas a quem ela serve e, sem falha, todas são retratadas de forma inferiorizada – tanto social, como culturalmente. Quando benevolentes, as empregadas do cinema e da TV atuam como um Negro Mágico ou Melhor Amiga da Protagonista, sempre cuidando e guiando os personagens brancos.

A Escravizada

Além de empregadas, as atrizes negras também costumam ter emprego garantido em produções de época, no papel, é claro, de mulheres escravizadas. O problema com esse tipo de representação – além de reproduzir o estereótipo da mulher negra em posição subalterna – é que ela novamente a coloca em um lugar de dor e sofrimento, muitas vezes focando a narrativa nas ações dos personagens brancos.

Além disso, no caso das novelas brasileiras, muitas dessas produções nos mostram uma versão adocicada da escravidão. No excelente documentário A Negação do Brasil – O Negro nas Telenovelas Brasileiras, o cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo reflete que esse tipo de novela traz uma releitura do comportamento dos escravos, na medida em que elas raramente retratam a resistência negra à escravidão e apresentam a abolição como um ato de bondade dos brancos.


Abaixo você encontra alguns links importantes para aprender mais:

 

Repost – Nó de Oito

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