Mulher no esporte

O preconceito e a desigualdade na luta por espaço

No início da carreira até mesmo os familiares das atletas mostram certa resistência sobre o esporte que elas praticam e que escolheram. Geralmente isso acontece por conta da cultura imposta. Um exemplo disso é o futebol, que apesar de ser muito praticado em nosso país, ainda passa uma imagem masculinizada. Jéssica Delfino, 21 anos, jogadora do time de futsal de Jacareí afirma “No início minha mãe foi um contra, por teoricamente, o futebol ser um esporte para homens, mas agora já se conformou. Já meu pai sempre me apoiou”. Mesmo quando há a aceitação, normalmente existe o pré-julgamento de que se elas se identificam com este tipo de esporte é provável que sejam homossexuais. “Há algum tempo existia um preconceito maior com mulheres que jogavam futebol, era só falar que praticava esse esporte que já achavam que a opção sexual era contraria ao que a sociedade julga certo, eu já passei por isso”, afirmou Jéssica. Mas hoje ela entende que normalmente quem pensa assim não é ligado ao esporte e não sabe que há diferença entre jogar futebol e gostar de meninas. Este tipo de separação de gênero ocorre também em outras categorias como no automobilismo, nas artes marciais e nos esportes de aventura ou radicais, que na maioria das vezes oferecem um grande risco a integridade física de seus praticantes. Por conta disso, a maioria das pessoas acredita que não são esportes para uma mulher praticar. Karina Godoy, de 18 anos, é jogadora da seleção joseense de rugby, e já jogou pela seleção brasileira em Dubai, EUA e Uruguai, confirma esta tese. “Sou a maior menina do time, as outras são mais magras e mais baixas e quando estou em campo me comparam com o ex-jogador de rugby, Jonah Lomu. Não ligo para a comparação, acredito que se fazem isso é porque sou boa jogadora, mas não tem nada a ver, afinal sou mulher”. As mulheres que praticam esses esportes sofrem ou já sofreram preconceito, com relação ao sexo oposto, esse preconceito vem desde as roupas que na maioria das vezes as marcas produzem apenas as versões masculinas. Uma skatista feminina, por exemplo, pode ganhar o patrocínio de uma marca que não produz roupas adequadas para mulheres skatistas, tendo assim, que se vestir como um garoto. Para Karina o patrocínio, não tem esse tipo de enfoque; “Claro que o time masculino de rugby tem mais patrocínio, mas não acredito que seja por serem homens e sim porque eles jogam muito melhor e ganham títulos. Nós ainda somos novas, começamos a ganhar títulos agora. Em breve poderemos chegar lá também e ter mais patrocínio”.

São José bem representado no boxe feminino

Até se tornar o que é hoje, uma modalidade forte, o boxe feminino enfrentou árduas batalhas, entre elas, a luta contra seu principal adversário, o preconceito. O esporte mesmo na sua representação masculina, durante muito tempo foi marginalizado por carregar o estigma da violência nos combates. O contraste da “luta de punhos”, como é conhecido o significado do boxe, com a fragilidade feminina é um paradigma que aos poucos vem sendo quebrado. Ao contrário do que muitos pensam, umas das principais preocupações do esporte é com a segurança e integridade física do atleta, além de pregar o companheirismo fora e dentro dos ringues. Foi essa filosofia que atraiu Suelen Souza (22) que há seis anos ingressou no boxe e hoje compõe a equipe de São José. A pugilista que detém um título de campeã brasileira, três de vice paulista e três de vice nos jogos abertos do interior, destaca que independente de o combate acontecer entre amigas ou desconhecidas o respeito é o mesmo. “Eu posso lutar com uma amiga e isso não afetará nossa amizade, pelo contrário, é provável saímos do tatame mais amigas”, afirma. Suelen que foi descoberta por Adilson Araújo, técnico da equipe de boxe feminino, se lembra da falta de apoio da família no início da carreira, mas com as vitórias, logo todos a aceitaram. “Minha mãe estranhou, mas não acreditou que eu fosse levar a sério, já a minha vó não gostava mesmo, achava que era coisa de homem”, lembra. O pugilismo é parte da vida de Suelen que diz viver do boxe, tanto que a escolha do curso superior está ligada a carreira no esporte. Cursando o último ano de educação física na Univap, ela pretende focar seu trabalho ainda mais na modalidade. “Estou estudando para trabalhar com formação de atleta, afinal nunca se sabe até quando nossa carreira de atleta vai durar”, diz. Mesmo com todo o esforço para desassociar o esporte a conceitos errados, ainda é forte, entre os leigos, a concepção de que esse tipo de esporte conduz a violência e de que sua prática é capaz de transformar o corpo feminino numa aparência masculinizada. O que não é verdade, como explica o personal trainer Rafael Fernandes: “O boxe é uma atividade que não trabalha com nenhuma carga excedente a do próprio corpo, a sua prática ajuda a dar definição e contribui para um melhor condicionamento físico. Para se adquirir características masculinas, a mulher precisa se submeter a um treino específico de musculação, onde o resultado é a hipertrofia muscular, diferentemente de quem pratica boxe”, explica o personal.

A luta por um espaço cada vez maior, num lugar onde muito tempo prevaleceu à presença masculina, será sempre constante, mas a tendência é que o preconceito diminua. É o que observa Suelen. “O esporte cresceu não só no que diz respeito às competições, mas também na área fitness e isso têm ajudado a mudar a imagem do boxe entre as mulheres”, ressalta. Uma recente conquista para o boxe feminino foi a participação da modalidade pela primeira vez num pan-americano, este que aconteceu em Guadalajara no México em 2011. A equipe joseense é um dos orgulhos da cidade. Atualmente compõem o grupo dez mulheres, dentre elas quatro pertencentes à seleção brasileira, que neste momento estão na China para disputar o Campeonato Mundial. São elas: Érika Matos, Rose Volante, Adriana Araújo e Roseli Feitosa, atual campeã mundial. As pugilistas joseenses alcançaram o tricampeonato paulista por três vezes consecutivas.

História

A polêmica sobre a prática de atividade esportiva por mulheres é tão antiga quanto à dos Jogos Olímpicos da Grécia. Naquela época os homens competiam nus e as mulheres eram proibidas até mesmo de assistir às competições. Esta proibição estava no primeiro item do regulamento Olímpico, que vetava a participação de mulheres em qualquer modalidade. Na Idade Média, com o comportamento fortemente influenciado pela Igreja Católica, a prática esportiva ainda continuava proibida para as mulheres. Só a partir do Renascimento é que elas foram liberadas a praticar algumas modalidades. A mulher só conseguiu conquistar um espaço mais significativo no esporte nos jogos olímpicos de 1900. Cerca de onze mulheres foram até Paris, na França, para participar dos 1º Jogos Olímpicos da era Moderna. Desde então, a participação feminina nos Jogos Olímpicos tem crescido constantemente, a ponto de restarem poucas modalidades que não oficializaram as competições para os dois sexos.

(Visited 95 times, 1 visits today)

Deixe uma resposta