Jornalismo de Educação

Encontrei uma matéria, até um pouco antiga, que fala exatamente sobre o Jornalismo de educação. Vou colocar ela aqui, mas você pode conferir a original aqui.

Educar ou informar?!

Quando se fala em jornalismo de educação é comum pensar em notícias sobre concursos, vestibulares e pesquisas da área. Mas essa é, de fato, a função dessa categoria do jornalismo?

A atuação da mídia pode ser um instrumento educativo para benefício da sociedade por meio das diversas abordagens elaboradas pelos jornalistas. Isso ocorre, principalmente, em matérias que utilizam do aprofundamento em vez da simples atitude de informar. Mas, em relação à educação na mídia vale lembrar que existe um espaço específico para se noticiar sobre o tema. Apesar do fato de que muitas pautas podem ser educativas a editoria de Educação dos jornais teria, a princípio, um compromisso maior com esse ideal. Mas como têm sido na prática? Educar é, de certa forma, realmente responsabilidade dos veículos midiáticos? Afinal, qual é a função do jornalismo de educação?

Antes de tudo, é importante ressaltar que há quem diga que existem duas formas de se fazer jornalismo relacionadas à educação. São elas: a educacional e a educativa. A primeira seria a tradicional cobertura de educação que lida com conteúdos informativos, sejam eles sobre eventos, concursos ou até sobre iniciativas que ocorrem no meio. Já a segunda se dá pelo aprofundamento, discussão de questões relevantes sobre o tema que visam a responsabilidade social e cidadania. Os jornalistas acabam fazendo uma espécie de função pedagógica. Contudo, não é tão comum ver esse tipo de matéria dentro da rotina daquilo que é conhecido na cobertura de educação.

No entanto, a professora e pós-doutora em comunicação pela PUC-Minas, Ana Elisa Ribeiro, questiona se ambas responsabilidades devem ser atribuidas a função do profissional da área. “Não sei se o papel dos jornalistas que trabalham com essas pautas é educar. Quem quer educar será professor”. Ainda assim, Ana lembra que educação não é algo que está presente somente nas escolas. “Se as matérias dessas editoriais são boas, então também podemos aprender com elas”, enfatiza.

Poucos profissionais preparados

A jornalista Eliane Bardanachvili, mestre em Educação, e editora da revista Radis da Fundação Oswaldo Cruz aponta que o jornalismo de educação ainda não é desempenhado de forma plena, seja no meio impresso ou televisivo. “O papel educativo do jornalismo (ainda) não se realiza nem dentro nem fora da editoria de educação”, lamenta. Existindo uma editoria específica ou não, a quantidade, bem como a profundidade das pautas abordadas é pequena em relação ao que deveria ser realizado. Um dos problemas se dá por conta do pequeno número de profissionais preparados para cobrir tais assuntos. “São poucos jornalistas especializados que acompanham os meandros da área, que compreendem suas sutilezas, que leem as entrelinhas, que não façam análises pontuais, mas conjunturais.” Para a jornalista, o leitor ou espectador que conhecer a educação pela mídia terá um “retrato bastante parcial e por que não dizer distorcido?”. E isso tudo ocorre já no pouco espaço demarcado para a publicação de textos sobre a educação.

Contudo, em alguns impressos, essa situação distorcida, parece caminhar para uma mudança. A cobertura de concursos e vestibulares já possuem seções ou cadernos específicos em alguns jornais. Editorias como Vida e Cidadania pertencente ao jornal Gazeta do Povo, do Paraná, usam do aprofundamento em temas relacionados a Educação. Tatiana Duarte, repórter de educação desse jornal, afirma que “o espaço para esse assunto têm aumentado, ao menos, nos veículos impressos”.

Ainda sim, Tatiana lembra que quando há algum acontecimento bombástico, a pauta de educação “é uma das primeiras a cair”.

Na mídia televisiva

Na TV aberta o problema talvez se torne mais nítido, pois o espaço é menor. Poucos programas, não necessariamente só de cunho jornalístico, são voltados para conteúdos realmente educativos. Alguns deles acabam sendo transmitidos em horários em que o brasileiro comum não consegue ver por ser tarde da noite, ou até de madrugada. Contudo, há alguns que ainda são disponíveis em horários mais acessíveis, como por exemplo, algumas produções da TV Cultura. A produtora de TV, Carla Pollake, já trabalhou nessa emissora. Para ela, o problema principal não está no baixo número de programas educativos. Em palestra dada no Unasp, a produtora alega que a audiência desses programas é mínima. “A TV Cultura investe nesses conteúdos, mas por que não há tanta audiência para esses programas?”, questiona. Carla também crê que a responsabilidade de educar não deve ser atribuída aos meios de comunicação. “TV tem que informar. Educação está em outros setores como, por exemplo, a família”, enfatiza.

Já na TV fechada ainda é possível encontrar conteúdos relacionados à educação com mais profundidade, inclusive canais específicos, como o Futura, que usa o jornalismo educacional em sua grade de programação. Entretanto, conteúdos como esse são disponíveis a quem tem condições de dedicar uma parte de seu salário para obtê-los. A professora Ana Elisa acredita ser ótimo ter bons programas educativos no meio, mas questiona a ideia que norteia a TV fechada, por proporcionar o que é bom só para quem poder ter. “É esta a lógica: se quiser algo melhor, pague”, lamenta a doutora em Linguística Aplicada.

Mostrar a realidade educacional

Independente do meio, a proposta do jornalismo educacional, segundo a repórter Tatiana Duarte, é traduzir a realidade do dia a dia do âmbito educacional para as pessoas comum. E para o professor e escritor Gabriel Perissé, doutor em Educação pela USP, isso implica em uma investigação que vai além da obtenção de dados e números que exemplifiquem os porquês do atraso educacional no país e chega à construção política da sociedade, nos personagens desse meio. Isso se faz em vez de culpar o professor ou a escola pública por uma série de problemas. Quando esse trabalho é executado, mudanças no panorama educacional, podem até acabar ocorrendo.

Além de educar, como qualquer outra editoria, a função do jornalismo de educação é trazer à tona aquilo que norteia esse mundo como função social. Se tal visão fosse estimulada com afinco pelas faculdades de jornalismo, mais profissionais bem preparados para discutir tais questões, estariam no mercado, proporcionando uma melhor apuração. Eliane e Ana Elisa, que lidam também, diretamente com educação, lembram que é muito mais comum ver alunos pensando em trabalhar em editorias como a de esportes ou, inclusive, se tornarem“celebridades” do telejornalismo. “É preciso, com bastante persistência, apresentar-lhes as inúmeras outras opções de caminhos de assuntos e de veículos, não só dentro da chamada grande imprensa. Sempre se consegue fazer a diferença para um ou outro aluno – o que não deixa de ser uma pequena vitória”, evidencia Eliane.

Outra questão que beneficiaria a cobertura do dia a dia educacional poderia ser a criação de espaço de discussão sobre esses assuntos. Ana Elisa acredita que a imprensa pode atrapalhar quando faz julgamentos ou deixa de falar sobre determinados fatos e projetos, bem como quando tende para um dos lados. “Talvez merecêssemos um observatório de mídia só para cuidar do que a imprensa diz sobre a educação e tudo o que ela envolve”, adverte Ana. Tal iniciativa poderia ser um pontapé para uma conscientização maior dos processos educacionais que ocorrem no país.

(Visited 23 times, 1 visits today)

Deixe uma resposta