Pode a comédia ser confortável?

Passeando no feed do próprio WordPress, me deparei com um artigo muito interessante: Can Comedy Be Comfortable? One Question, Seven Humorists (Comédia pode ser confortável? Uma pergunta, Sete Humoristas – tradução livre). O Post fazia apenas uma pergunta e trazia a resposta de sete humoristas que mostravam seu ponto de vista sobre o desconforto alheio ser cômodo. É bem aquela história clássica de rirmos da desgraça alheia, algo como alguém cair da escada, levar uma torta na cara, ou mais utilizado atualmente, gozar dos defeitos dos outros. Bom, aproveitando a deixa, fui nesta última terça (dia 16/02) em meu primeiro Stand-up Comedy e, como estava bem ansiosa, foi muito mais legal do que eu imaginava. E vou dizer que além de aproveitar todo o espetáculo, ainda consegui fazer uma versão BR do artigo.

A pergunta é a mesma:

É o desconforto uma parte essencial da comédia, ou apenas uma maneira de ser engraçado? Será que comédia não pode ser confortável para todos?

Já os entrevistados foram os incríveis Luiz França, Dinho Machado, Paulo Mansur, Onofre Gonçalves e Rodrigo Marques.

 

Luiz França Luiz França

Depende muito. As pessoas falam muito, julgam muito a comédia de stand-up, é comum ouvir, “mas fulano de tal fazia um programa de televisão e ele não precisava interagir com o público”. Obvio! É um programa de televisão e em um programa de televisão você não precisa ter a necessidade da resposta da plateia, então você tem um texto, você grava, e em casa ou no cinema, as pessoas vão rir ou não daquela piada. Ou seja, comediante, ou o ator, não tem a preocupação do retorno. Já para quem faz stand-up é muito imediato, o cara está no palco e ele precisa do retorno, se ele não tiver o retorno da piada que ele fez, então a piada não funcionou no momento, ou não funciona mesmo. A gente vai estudando isso ao longo do tempo. Então é esse o diferencial, não tem como dizer se é confortável ou não, é confortável sempre quando é nos outros.

Eu tenho um fato muito interessante, que o Léo Lins, eu queria levá-lo para o Japão e deu um rolo danado, porque ele fez umas piadas no Twitter na época do terremoto, e eu estava no terremoto, e ele fez a piada comigo exatamente porque eu estava lá. E ele brincou com o tsunami e etc. E uma parte da Comunidade Brasileira no Japão se ofendeu muito com isso, xingaram ele, fizeram abaixo assinado para ele não ir para o Japão e ele acabou sendo proibido de ir para o Japão. Ele já tinha um visto de trabalho e artista e ele não foi por causa do abaixo assinado. Resumindo tinha umas 198 assinaturas para ele não ir e mais de 14.900 assinaturas para ele ir, mas já haviam cassado o visto dele. Então eu fui para o Japão, para fazer o show e antes de me apresentar coloquei uns vídeos estilo vídeo-cassetada para o público, e eles riram, mas riram muito. E quando eu entrei, eu falei: “Vocês estão rindo disso?  Sabia que os vídeos que eu passei os acidentados morreram”. Ficou um silencio incrível. Então eu falei: “Calma gente, estou brincando. Ninguém morreu, na verdade eu nem sei. Mas é a mesma coisa que houve, o cara fez uma piada lá de uma situação que aconteceu aqui, ele não teve a sensação e nem a intenção de ofender nem de pôr os que morreram ou os parentes em má situação”.

Então é muito difícil, saber quando você está de um lado ou do outro quando você fala de um problema, por exemplo alguém furou o pé com o caco de vidro e teve que cortar a perna. Você pode ignorar essa situação e falar de uma outra situação de forma engraçada que não aconteceu nada comigo. Então o confortável é sempre o que não atinge a gente. Mas, se você pensar, isso, (fazer piada) talvez melhore na situação tipo: “ah a vida é foda, eu amputei a perna, mas foi engraçado, e a vida segue. ”

A galera leva muito a sério o humor, no momento que não é para levar. O humor não é para ser levado a sério. O humor é exatamente para ser levado para o outro lado, é para rir, é o único jeito de rirmos das coisas erradas que acontecem na política, dos corruptos, porque a justiça é que é responsável para resolver. O que me resta é brincar e minimizar, tentando fazer disso algo engraçado. É obvio que tem gente que não leva isso dessa forma, e extrapola. Mas a gente vive disso, então estamos o tempo inteiro procurando coisa engraçada.

Dinho Machado Dinho Machado

A comédia não só deve ser confortável, como é e só não é confortável para quem não está preparado para ela. Então é como pela manhã eu te dar um bom dia, e você dizer “Bom dia pra quem?” Porque você não está preparado para recebe-lo. A comédia é comédia, o nome já diz, serve para fazer você rir. A pergunta na verdade tem que ser diferente, as pessoas estão preparadas para receber a comédia. É exatamente o que o Danilo Gentili disse: “Não existe um limite de humor, existe um limite do ser humano.” Então o ser humano está muito “cagador de regras”. É a mesma coisa de você ir em um supermercado, não gostar de um produto e querer tirar ele de linha, ao invés de deixar de consumir. Quem gosta consome! A comedia, espero eu, que as pessoas passem a entender ela, para que assim ela possa ser aceita e entendida por todos. Eu espero que isso um dia mude. Quando? Não sei, mas acho que demora um pouco.

Paulo Mansur Paulo Mansur

É assim, o exemplo que você deu (de alguém cair da escada) deve ser o exemplo mais antigo de comédia da história. Eu acho, de verdade, os egípcios construindo as pirâmides, tinha um cara subindo uma escada carregando um pote de barro. Se o cara cai de lá e não morre, os amigos dele vão rir. Isso não é um problema e isso não é de hoje. Não é de hoje que as pessoas riem do cara que levanta de um banco e está com as costas cheias de tinta. Ou então, rasgou a calça e apareceu a bunda. Tem uma tirinha que é a seguinte:

Um menino chega para o pai e diz: -Pai eu consegui fazer uma piada que não ofende etnia, orientação sexual, nacionalidade e tamanho.

O pai diz: – Que legal deixa eu ver.

Aí entrega um papel em branco.

A piada tem um viés satírico, o Português é burro, a Loira é burra, o adolescente que muda a voz é esquisito. O desconforto é necessário para a arte, quando Picasso pintou Guernica, ninguém falou você está fazendo uma pintura de um bombardeio. É só isso que tenho para dizer.

Rodrigo Marques 1508135_467057223429469_1071771296_n

Toda piada tem que ter um alvo, não existe essa de fazer piada sobre pessoas felizes e alegres, andando pela rua. A piada tem que machucar alguém, tem que ser ofensiva para alguém, então cair de uma escada é engraçado! E eu tenho uma teoria de que TUDO é engraçado, você simplesmente não está rindo porque ainda não descobriu que é engraçado, mas tudo é engraçado. E é exatamente isso, você tem que aprender a rir de todos os problemas, de tudo que acontece, porque a piada não tem como dizer: vou fazer uma piada sobre felicidade. Não, dane-se a piada tem que ser sobre algo: Joãozinho tem que ser um filho da puta, o português tem que ser burro, a loira tem que ser burra, etc. Não pode ser simplesmente legal, a piada não é isso, ela está para satirizar, para ironizar e para fazer coisas diferentes do que simplesmente mostrar o lado legal do mundo, isso aí a gente vive. Humor é diferente.   O Anthony Jeselnik humorista americano,  tem um estilo de humor muito pesado negro, faz piada com todos os acidentes que acontecem no mundo. Bomba em Londres, França e a galera sempre reclama com ele: “você está fazendo piada, você não tem pena das vítimas dos familiares?” E ele sempre responde: “As vítimas e os familiares não estão no Facebook e no Twitter nessa hora. Eu estou querendo trazer um pouco de alegria para as pessoas que não estavam lá.” Porque tudo é engraçado.

Onofre GonçalvesOnofre

O desconforto é necessário para o humor, ele é tão subjetivo quanto o próprio humor. O que é desconfortável para mim, pode não ser para ele. E só é engraçado para alguém porque foi desconfortável para outro alguém.  E se não causou desconforto, você não foi afundo naquele assunto. E acredito que a questão é a aceitação deste desconforto. Tanto que no Stand-up a pessoa causa o desconforto primeiro para ela mesma para depois falar dos outros.

 

Está aí o que cada um deles pensam e falando um pouco sobre minha experiência, assim que anunciam que o show ia começar, alertaram:

ATENÇÃO PROPRIETÁRIO DO UNO MILLE PRATA, PLACA XXXXXXX,

PROPRIETÁRIO DO UNO MILLE PRATA, PLACA XXXXXXX,

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ESTÁ NA HORA DE VOCÊ MUDAR DE CARRO.

Foi um grande desconforto para mim, sím é o nosso carro, meu e do meu namorado, mas é nosso primeiro carro tenho muito amor por ele. Senti na própria pele o que é um desconforto cômico, mas não achei tão ruim assim. Até contei para outras pessoas depois. Não estou dizendo que rir de nossas desgraças é legal, pois ninguém aqui que ser um e Joseph Climber, para que outros deem risadas.  Mas, depois de toda essa discussão, posso dizer que realmente a comédia, não é para ser séria. Ou envolver algo chato e correto, podemos rir de nossas tragédias, de nossos erros, nossas cagadas e ainda assim, aprender com eles. Claro que rir de tragédias, do cotidiano não inclui praticar racismo, homofobia, machismo e etc., mas estarmos abertos a certas ocasiões e certas risadas pode ajudar a levar a vida menos a sério e talvez, assim vivermos em um mundo melhor.

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