Fica Comigo e a “obsessão feminina” depois de um fora

Assisti ao novo filme original da Netflix, Fica Comigo, e vim aqui falar o que achei da trama, que inicia sem graça mas vai te cativando com o tempo. O longa conta a história de Alison (Halston Sage) e Tyler (Taylor John Smith), que estão juntos há um bom tempo. Em uma festa, a aparição de um ex-namorado de Ali causa uma terrível briga entre os dois, e no calor do momento, rompem o relacionamento. Então aparece Holly (Bella Thorne) que após uma noite de sexo com Tyler fica obcecada pelo jovem e acaba tornando a vida dele e de quem o rodeia insuportável.

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Dirigido por Brent Bonacorso (The Narrow World), o filme conta com uma história muito comum, o tipo de clichê utilizado por alguns diretores e produtoras. Alison uma menina com um passado escondido que mudou de cidade para mudar de vida. Tyler apaixonado pela namorada e inseguro com a relação e a vida.

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Além disso, Tyler é machista e bem babaca na maior parte do tempo. O fato de ter brigado com a namorada por causa de seu passado promíscuo e agredir Holly, quando ela insiste em ter um relacionamento com ele, só o fez perder pontos. Sem contar que todo esse drama poderia ter sido resolvido se ele, ao reconciliar, estivesse sido sincero. Mas enfim, é o roteiro de um filme então teve de ser assim.

Apesar dos clichês, muitas cenas me lembraram alguns filmes de suspense e terror e no final das contas a psicopata salva a trama. As mudanças de humor de Holly deixa o espectador aflito. Pois ao mesmo tempo que ela é doce e gentil, parece que a qualquer momento ela vai matar alguém. E não se contenta em terminar com o namoro do jovem, mas também o faz ser expulso da escola e ameaça a vida da ex-namorada dele, Alisson.

O que achei desapontador sobre o filme é o clichê da mulher se tornar a louca depois de ser rejeitada. Já não basta o mundo machista dizer isso da gente? Os filmes também precisam?

 

É exatamente como no filme Obsessiva com a diva Beyoncé ou no novo filme com Katherine Heigl , Paixão Obsessiva. A amante, a ex, ou aquela que não teve nada mas quer ter e surta só para ter o cara com ela. É ridículo, e quando pensamos melhor a realidade é outra. Ao contrário do que vemos nesse filme, os crimes passionais, ou seja crimes motivados pela paixão. Normalmente essa paixão é tão doentia, violenta e irreprimível, que provoca a perda do controle das ações do seu autor.

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Este tipo de crime é a maior causa de assassinatos de mulheres,  segundo o Mapa da Violência 2015, 50,3% das mortes violentas de mulheres no Brasil são cometidas por familiares. Desse total, 33,2% são parceiros ou ex-parceiros. Os crimes cometidos contra as mulheres é conhecido como feminicídio.

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.”,
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher (Relatório Final, CPMI-VCM, 2013)

Com uma taxa de 4,8 assassinatos em 100 mil mulheres, o Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos: ocupa a quinta posição em um ranking de 83 nações, segundo dados do Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso).

Trata-se de um problema global, que se apresenta com poucas variações em diferentes sociedades e culturas e se caracteriza como crime de gênero ao carregar traços como ódio, que exige a destruição da vítima, e também pode ser combinado com as práticas da violência sexual, tortura e/ou mutilação da vítima antes ou depois do assassinato.

Mas essa violência se inicia com um simples comportamento possessivo, jogos de controle, violência, ciúmes, abstinência sexual e frieza emocional, ou seja, são os casos clássicos de relacionamentos abusivos. Por isso, acredito que antes de fazer mais um filme como esse tema e mostra a mulher como louca, obcecada e que não pode ficar sem determinado homem. É preciso discutir o feminicídio, o relacionamento abusivo e a violência contra a mulher. Que é a nossa realidade.

E se você ficou em duvida sobre o que é, ou se está em um relacionamento abusivo, a seguir estão dez sinais de uma pessoa abusiva:

1. Ciúmes e possessividade – É ciumento/a de sua família, de seus amigos, e colegas de trabalho. Tenta isolar você. Um homem abusivo vê as mulheres e suas crianças como sua propriedade em vez de indivíduos únicos. Acusa você, sem razão, de traição ou de flertar com outros homens. Pergunta onde você estava e com quem estava de uma maneira acusadora.

2. Controle – uma pessoa abusiva exige abertamente que seu tempo e você sejam o centro de sua atenção. A pessoa controla as finanças, o carro, e as atividades que praticam juntos. Torna-se raivoso/a quando você começa a mostrar sinais de independência ou força.

3. Superioridade – a pessoa abusiva sempre está certa, tem que ganhar sempre ou estar no comando. Ela sempre justifica suas ações de modo a estar sempre “certa” para você e os outros. Um abusador/agressor irá falar de cima para baixo com você e te xingará, a fim de sentir-se melhor. O alvo dele é fazer você sentir-se fraca/o de modo que ele/ela possa ter poder. Abusadores são frequentemente inseguros e seu poder faz com que se sintam melhor a respeito de si mesmos.

4. Manipulação – o abusador/agressor lhe diz que você é louca/o ou estúpida/o de modo que a culpa caia sobre você. Ele tenta fazer você pensar que o que ele/ela faz é sua culpa. Diz que não pode fazer nada quanto a ser abusivo de modo que você sinta a pena dele e continue tentando ajudá-lo. Mas diz aos outros que você é instável.

5. Mudanças de humor – o seu humor muda de agressivo e abusivo para uma aparência humilde, desculpando-se e tornando-se amoroso/a depois que o abuso aconteceu.

6. Suas ações não correspondem a suas palavras – ele/a quebra promessas, diz que ama você e depois abusa de você.

7. Pune você – uma pessoa abusiva emocionalmente pode privar você de sexo, de intimidade emocional, ou joga um jogo silencioso como punição quando ele/ela não consegue as coisas do seu jeito.

8. Não quer procurar ajuda – o agressor não pensa que alguma coisa está errada com ele então porque ele precisa de ajuda? Ele não reconhece suas faltas ou culpa sua infância e circunstâncias exteriores.

9. Desrespeita as mulheres – o homem agressor demonstra falta de respeito em relação a sua mãe, irmãs, ou qualquer mulher em sua vida. Pensa que as mulheres são estúpidas e sem valor.

10. O homem agressor muitas vezes tem uma história de abuso a mulheres, ou a animais, ou foi abusado ele mesmo – Agressores físicos repetem seu padrão e procuram pessoas que são submissas e possam ser controladas. O comportamento abusivo pode ser uma disfunção geracional e pessoas que sofreram abuso têm uma grande chance de se tornar agressores. Homens que abusam de animais são mais capazes de abusar de mulheres também.

Fonte: SOS Mulher e Família e Agência Patricia Galvão

Voltando ao filme, se ficou curioso, assista o trailer e decida se vale a pena assistir.

E não esquece de voltar e dizer o que achou.

 

 

 

 

2 opinions on “Fica Comigo e a “obsessão feminina” depois de um fora”

  1. Olha, eu ainda estou assistindo o filme e se tem algo que me irritou muito é essa questão da mulher ser a louca e tratada como lixo

    1. Infelizmente essa é a realidade tratada nos filmes. Precisamos de mais papeis femininos que falem da realidade da mulher. Porque a visão que o mundo tem das mulheres é horrivel e o pior muitos compram essa ideia. A típica resposta quando se pergunta para um homem, porque ele terminou um relacionamento: “porque minha ex era louca”. Obrigada pela visita. Volte sempre.

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