Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial

Hoje, 3 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. Nesta data, em 1951, era aprovada a Lei n° 1.390, mais conhecida como Lei Afonso Arinos, proposta pelo jurista, político e escritor mineiro, que determinou como infração penal o preconceito por raça ou cor.

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Infelizmente apesar dessa lei ser tão antiga não vemos o cumprimento da lei até hoje. Após a abolição, os negros passaram a habitar guetos e comunidades, como forma de proteção, e em razão da falta de oportunidades. Os negros são alvos recorrentes de racismo, seja ele de forma velada ou explícita.

São casos de preconceito em tantas áreas que chega a ser um absurdo. Um jovem que não arranja emprego por causa de sua cor, uma mulher confundida como sequestradora por estar com sua filha branca, jovens são assassinados e agredidos nas periferias apenas por serem negros.

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E isso não acontecem apenas com os “anônimos”, ou “desconhecidos”. Jogadores de futebol também são chamados de “macacos” em estádios, mensagens ofensivas destinadas a atores, jornalistas e atletas negros através das redes sociais e alunos em idade escolar alvo de preconceito por seus cabelos afros.

No Brasil, o Movimento Negro busca a compensação por todos os anos de trabalho forçado e à falta de inclusão social após esse período; a falta de políticas públicas destinadas a maior presença do negro no mercado de trabalho e nos campos educacionais. Também, a efetiva aplicabilidade das leis que buscam a criminalização do racismo e a plena aceitação e respeito à cultura e herança histórica.

Conheça mais sobre o histórico de leis brasileiras relacionadas a crimes raciais aqui: http://goo.gl/43mWIP

Esse não é um problema apenas nacional, em muitos países também existem discriminação contra negros.

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O movimento Black Lives Matter (As Vidas Negras Importam), por exemplo, é um movimento ativista internacional, com origem na comunidade Afro-americana, que campanha contra a violência direcionada as pessoas negras. BLM regularmente organiza protestos em torno da morte de negros mortos por policiais, e questões mais amplas de discriminação racial, brutalidade policial, e a desigualdade racial no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos.

CORRA! O que achei do filme de terror mais comentado

Assisti ao filme Corra recentemente, muito bom por sinal. E li em uma matéria do GQ Brasil sobre um final “alternativo” um tanto perturbador.  E resolvi falar um pouco sobre o filme e também sobre seu outro fim. Vamos lá?

Corra! É um filme de terror escrito, coproduzido e dirigido por Jordan Peele, aliás é sua estreia como diretor. O filme marca uma mudança de gênero para Peele, já que ele tradicionalmente trabalhou na comédia, embora ele tenha afirmado que estava querendo fazer um filme de terror há um tempo. Pois, segundo ele, os gêneros são semelhantes e a comédia foi um tipo de treinamento para o filme. Como o filme trata o racismo, Peele indicou que a história é “muito pessoal”. Embora tenha dito que desvia de qualquer coisa autobiográfica.

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A história conta o fim de semana de um fotógrafo Chris Washington (Daniel Kaluuya) que está para enfrentar um dos maiores medos que um jovem pode enfrentar: conhecer os pais de sua namorada (Allison Williams). Como negra, eu entendo perfeitamente que as coisas pioram ao se dar conta que os pais da moça (Bradley Whitford e Catherine Keener) serem brancos. São situações muito constrangedoras.

Final original (Alerta de Spoiler)

Peele originalmente pretendia que o filme terminasse com Chris sendo preso pela polícia pelo assassinato de Rose e sua família, e pretendia que a cena fosse um reflexo das realidades do racismo. No entanto, no momento em que a produção havia começado, vários tiroteios policiais de alto nível de negros tinham, em suas palavras, feito a situação em torno do racismo e ele decidiu que o filme precisava de um final feliz para sua liderança.

Peele também afirmou que ele trabalhou com vários outros finais possíveis antes decidir o final real, alguns dos quais serão incluídos no DVD e Blu-Ray.

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É esquisito quando você vai assistir um filme de terror mas o que mais te satisfaz são as tiradas sutis de humor do filme. Sejam nas participações sempre ótimas de Rod, o melhor amigo de Chris, interpretado por LilRel Howery ou nos diálogos onde os brancos ricos tentam, sem sucesso, mostrar como não são racistas falando coisas como “votei duas vezes no Obama!” ou “eu conheci Tiger Woods! O melhor!” – GQ Brasil

 

Sinopse:
Chris (Daniel Kaluuya) é jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada caucasiana Rose (Allison Williams). A princípio, ele acredita que o comportamento excessivamente amoroso por parte da família dela é uma tentativa de lidar com o relacionamento de Rose com um rapaz negro, mas com o tempo, Chris percebe que a família esconde algo muito mais perturbador.

Enfim, Corra! é um excelente suspense, um terror psicológico que me prendeu até o fim e com todas as críticas positivas que o longa anda recebendo condiz com a boa trama apresentada.

Dear White People, racismo velado e minhas considerações

Olá, voltei. E dessa vez estou aqui para falar sobre a série Dear White People, baseada no filme de 2014 de mesmo nome.

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Confesso que estava insegura de escrever sobre a série, pois não acho que tenha bagagem suficiente para dissertar sobre o assunto. Não só pelas inúmeras questões raciais que estou aprendendo agora e, apesar de ter sofrido racismo durante toda a minha vida, é complicado e difícil de explicar. Na verdade complicado falar sobre algo que você entende há pouco tempo. Ainda assim, vou tentar falar quais são minhas considerações.

Enquanto o filme concentra-se na escalada de tensões raciais em uma prestigiada faculdade da Ivy League na perspectiva de vários estudantes afro-americanos. A série ataca, de forma sarcástica, a ilusão de uma América pós-racial. O que me chamou atenção, e na verdade eu só fiquei sabendo depois de assistir a série é que em fevereiro a Netflix recebeu inúmeras avaliações negativas, foi chamada inclusive de ser anti-brancos e racista (vejam os comentários no trailer do Youtube). Isso tudo porque no teaser lançado no mesmo mês mostrava Samantha White, uma mulher negra que parece ser uma locutora de rádio e fala ao microfone uma lista de fantasias de Halloween que são totalmente aceitáveis para pessoas brancas “pirata, enfermeira, qualquer um dos primeiros 43 presidentes americanos…” e o topo da lista de fantasias inaceitáveis “eu“, seguida por inúmeras imagens de homens e mulheres brancos com o rosto pintado para parecerem negros.

A mensagem de Dear White People nesse teaser, é bem clara. É a critica a tradição da Blackface que começou no século XIX nos shows de menestréis, nos quais atores brancos se pintavam de preto usando carvão de cortiça para representar personagens afro-americanos de forma pejorativa. Dessa maneira, além de reforçar estereótipos racistas, a atitude também impedia que pessoas negras participassem de apresentações teatrais.

Dear White People é sobre racismo velado, explícito, e a relação entre os próprios militantes e seus diferentes pontos de vista sobre a luta. É sobre a problemática do empoderamento estético, que exige gastos, dor física e um esforço para ser aceito. É sobre as pessoas esperando que você, negro, seja o representante de todas as pessoas negras do mundo — como quando o professor de História de Samantha espera DELA a resposta sobre uma questão relacionada à escravidão, e todos olham para a menina aguardando que ela dê seu parecer. Afinal, ela é negra, obviamente ela TEM que falar a respeito. Ou os homens que se aproximam de Coco por a acharem muito bonita, mas nem cogitam um relacionamento sério ou levá-la para conhecer suas famílias.

– Gabriela Moura em Medium

Quando se fala em racismo é muito complicado tirar da cabeça do próprio negro o que é apenas uma brincadeira de mal gosto e o que é Racismo, por muitas vezes as duas coisas são as mesmas, mas estamos tão acostumados que não vemos a diferença. Eu mesma passei por situações, assim como alguns conhecidos que me fizeram pensar no absurdo que é viver sendo negra. Pois só quem é negro e vive o que vivemos entende, aí surge uma série que fala sobre tudo isso. Além de abordar todas as loucuras que nos sujeitamos para sermos aceitos entre os “brancos”. É muita informação, sim e posso dizer que assim como 13 Reasons Why, me fez refletir sobre minhas ações perante o mundo.

Algumas coisas sobre a série que eu gostaria de dizer, primeiro não vejo problema em casais inter-raciais, mesmo que alguns não entendam nossa situação como afrodescendentes, é parte da nossa militância mostrar e ensinar aos outros nossas lutas e causas. Por isso qualquer tipo de relacionamento: amoroso, amigável, politico. etc. Qualquer relacionamento que envolva pessoas diferentes é muito mais enriquecedor do que relacionamentos entre pessoas iguais, de certa forma é uma segregação. Como eu disse, ainda tenho muito a estudar sobre o assunto. E essa é minha forma de pensar, hoje.

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O que eu vi, assistindo a série, foram pessoas com problemas de relacionamento com seus pais, questões sobre sua popularidade, sobre autoestima e sobre sua sexualidade. Claro que ter 90% de atores negros colabora com a abordagem de assuntos de questão racial, como a cena na festa. Em que foi a mais tensa e esclarecedora para os personagens e para quem assistiu, sem dúvida. Mas confesso que não vejo problema em uma pessoa branca cantar uma letra de Rap que tenha a palavra “Nigga”. Vejam que isso é bem diferente de chamar alguém de “Nigga”. A questão é bem parecida com aquela frase “Só viado e sapatão pode chamar viado e sapatão de viado e sapatão” Apesar de eu não ser sapatão, sempre chamei meus amigos homossexuais de viados, e não de forma pejorativa, todos sempre aceitaram numa boa. Ou seja, tudo envolve o contexto, a proximidade, a intimidade e etc. Eu mesma não acho neguinha um termo legal, para mim parece nome de cachorro, mas tem gente que curte, vocês entendem? É muito pessoal.

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Por fim quero deixar uma questão: Gostamos de personagens femininas com características que dizemos ser femininas, delicadas, sensíveis e etc? Será que por Sam White ser uma mulher forte, empoderada e de atitude nós não demos as devidas atenção? Ou será que demos muita importância à Hanna Baker porque ela é branca? Se fosse uma menina negra que sofresse, além de todo o bullying, machismo e abuso, também o racismo será que teríamos o mesmo olhar?

Fica aberta a discussão…

Repost – Racismo disfarçado

O mito da miscigenação racial, de que “somos todos humanos” é muito difundido pela mídia. Essa ideia tenta incutir que o racismo trata-se de ignorância, visto que todos temos ascendência negra em nossos genes. Porém esta mesma linha de raciocínio posiciona-se contra as cotas, e defende que quando um negro ocupa uma posição de destaque não há o que comemorar já que somos todos iguais. Uma forma de invisibilizar os negros e negras, mantê-los à margem da sociedade, porém sem parecer nitidamente racista. Sim racismo é ignorância sob muitas formas e invisibilizar os negros e negras é uma delas.

Uma das consequências deste desfavor social que a imprensa golpista tentar nos fazer engolir goela abaixo, é o racismo disfarçado que sofremos cotidianamente. Expressões que ouvimos com infeliz frequência são  naturalizadas de tal forma que se alguma negra alardear, é facilmente justificado pelos brancos como “dito popular” ou com um simples “fui mal interpretado”. Nós vítimas do racismo, somos muitas vezes transformados em criadoras de caso, oportunistas e ignorantes (não entendemos o contexto em que o termo foi usado).

Os dados nos trazem outras interpretações. Segundo o Mapa da Violência 2014 no período de 2002 a 2012, enquanto o número de assassinatos de brancos diminuiu, passando de 19.846, em 2002, para 14.928, em 2012, o número de assassinatos de negros aumentou de 29.656 para 41.127, no mesmo período.

Já segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) os negros ganham 57% dos salários dos brancos. Enquanto um trabalhador branco recebe em média R$ 2.396,74, os trabalhadores negros ganham em média R$ 1.374,79, conforme mostrou a pesquisas Mensal de Emprego (PME), em 2013.

Ainda, de acordo com o Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), mulheres brancas recebiam 52% a mais, em média, do que as mulheres pretas ou pardas.

Queria aqui destacar algumas expressões que nós negros e negras ouvimos rotineiramente e nos indignamos com cada uma delas. Depois de tomar conhecimento dessas frases peço que não às usem mais. A língua portuguesa é tão rica em vocabulário que não há necessidade de conscientemente utilizar termos racistas.

  1. “Cabelo ruim”, “Cabelo de Bombril”, “Cabelo duro”, “Cabelo bandido: Quando não está preso está armado” – A negação da nossa estética como bela se dá por estarmos fora do padrão de beleza europeu. O capitalismo também se favorece com isso através da indústria cosmética que tenta embranquecer a estética negra. Ruim é achar que todo cabelo para ser bonito tem que ser liso. Uma das formas de empoderamento das negras é através da aceitação do seu crespo.
  2. “A coisa tá preta”, “ovelha negra da família” – Essas expressões, que ligam as palavras “preto” e “negro” a situações negativas são tão corriqueiras que muitas pessoas nem percebem que estão sendo racistas. Mas estão!
  3. “Seu macaco” – Esta expressão associa à cor da pele negra a um animal próximo na escala evolutiva, porém intelectualmente inferior. Significa dizer que a raça negra é menos gente do que os caucasianos.
  4. “Não sou tuas negas” – É a permissividade da cultura do estupro. O termo dá a entender que com a mulher negra se pode fazer tudo, pode desrespeitar, pode abusar, pode estuprar…
  5. “Nossa! Nem parece sua mãe/filha” – Vai estudar. Sem mais.
  6. “Amanhã é dia de branco” – Durante a escravização os negros eram forçados a trabalhar e ainda assim eram chamados de “vagabundos”, “preguiçosos”. O trabalho era dos brancos em fazer os negros produzirem alguma coisa, já que eram considerados como animais. Dia de branco era o dia de produzir para o branco. Não confundam preguiça com resistência a escravização.
  7. “Serviço de preto” ou “baianada” – Não é preciso explicar que na Bahia a maior parte da população é negra. Essa expressão é usada quando um serviço é mal feito. Outro reflexo do período da escravização onde os negros faziam os trabalhos sob chibatadas, sol quente e com pouca alimentação.

OBS: Não consigo nem sequer compreender como ainda usam esses termos do item 6 e 7. Reduzir a produção ou realizar a tarefa sem empenho ou interesse na perfeição, como ato de resistência a escravização não pode ser usado como expressão que reduza a dignidade de um povo. Era uma forma de protesto. Você faria com afinco e dedicação um trabalho sob açoite? Eu não.

  1. “Denegrir” X “Esclarecer” – O significado de denegrir é “tornar negro”. Se tornar algo negro é tornar algo ruim, temos mais um caso de racismo. O oposto é esclarecer, tornar claro. Neste caso a confusão criada entre cor e raça é proposital. É mais uma forma subliminar de expressar que o que identificamos como negro é ruim e o que identificamos como branco é bom.
  2. “Inveja branca” – Segue a ideia de relacionar ao Negro o que é ruim e ao branco o que é bom. Mas convenhamos, Inveja é sempre ruim.
  3. “Da cor do pecado” – Essa tem uma mensagem de fundo. A ideia é tirar a culpa do branco pelo abuso sexual, visto que a cor das negras incita o pecado. Culpabilizar a vítima. Importante também lembrar que vivemos em uma sociedade pautada pela religião e associar a pele ao pecado é transformar as mulheres negras em algo do mal. Não é um elogio.
  4. Morena”, “mulata”, “tipo exportação” – Aqui o objetivo é amenizar o que somos, “clareando” o negro. Se você está incomodado em chamar alguém de negro(a) é porque acredita que isto é ofensivo, sendo assim embranquece a pessoa – transformando-a em “morena” ou “mulata”. Isso é racismo.
  5. “Negra de beleza exótica” ou com “traços finos” – Ser negra e ser bonita está relacionado a se aproximar dos traços dos brancos. Sim, isso é racismo. Ser negra não é nada exótico. Somos 50,7% dentre negros e pardos, da população brasileira segundo o IBGE. Esse tipo de racismo é absurdamente hipócrita.
  6. “Nasceu com um pé na cozinha”, “Tem um pé na senzala” – Os negros não eram escravos. Eles foram escravizados. Associar a senzala ou a cozinha a sua origem é de uma crueldade insana. A presença das negras na cozinha era permitido nas casas grandes para execução das tarefas domésticas e para facilitar o assédio e estupro por parte dos senhores. Retire essa expressão do seu vocabulário com urgência!
  7. “Você tem sorte de ser negro, nem precisa estudar para passar no vestibular” – Minha ancestralidade não entende como sorte ter sido escravizada, muito menos eu entendo como sorte sofrer os reflexos da escravização. Geralmente isso eu nem respondo.

Encontrou alguma expressão que você usa? Não use mais. O argumento da ignorância não mais se aplica. Continuar a usar estes termos é decidir reafirmar o preconceito, é decidir ser racista.

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